quinta-feira, 20 de setembro de 2007

I Arthur

O moleque vivia correndo, driblava os obstáculos da rua em giradas com o corpo elástico e passadas que lembravam ensaios de dança de salão, corria elegante apesar de um pouco estabanado. Por vezes ao fazer a curva do quarteirão perdia o controle do caminhado acelerado e trombava com algum desavisado. Tudo parte de uma brincadeira solitária, imaginada, que inventava na cabeça, pensava estar em um jogo de futebol com zagueiros mais fortes e volantes duros, girava o corpo, gingava com as pernas, pulava os carrinhos, saltava os corpos atravessados no campo até achar uma boa pedra, uma caixa de papel, uma tampinha de garrafa, uma latinha de cerveja, para desferir o chute fatal, preciso. Pulava pela rua feito um pequeno louco saído do hospício. Fizera o gol. Encarava as trombadas eventuais como uma jogada infeliz que não tivera como finalizar. Um erro de passe do companheiro ou uma atitude fominha de sua parte. Caia em risadas, enquanto o pobre senhor com as mãos na barriga tentava recuperar o fôlego para, então, gritar com o moleque que já longe - recebera um passe longo - corria a gritar desculpas.
Sandra tinha pouco menos que sua idade. Criança também, achava graça do vizinho de bairro, sempre apontava para ele de longe e a mãe olhava insatisfeita pelas escolhas estéticas da sua bela filha. Menino maluco, minha filha, que graça tem esses pulos, parece doente da cabeça. A menina todas as vezes desapontava-se com a mãe, que não conseguia entender a beleza que só ela parecia ver.
Era uma tarde quente, o Rio inteiro parecia de folga, as pessoas na rua tomavam sorvete e refrigerantes para aplacar o calor. Cervejas nos botecos lotados e poucas roupas vestiam a maioria dos homens. As mulheres ainda eram, em sua maioria, adeptas às roupas sérias cobrindo o corpo, apesar do forno que se escondia embaixo dos panos. Arthur vinha apenas de shorts e chinelas de dedo, protegendo os pés do chão incandescente, correndo como sempre, driblando seus adversários imaginários. Sandra o notou antes. Ele pulou um saco de batatas escorado em frente à venda e depois girou o corpo passando as costas pelo Seu Coutinho, que caminhava tranquilamente pela rua chupando seu picolé. O senhor fitou o garoto e sorriu, Sandra via tudo, apesar da mãe a puxar sem querer para o lado oposto do acontecimento. Sem ter a intenção, Arthur correu em direção às duas e quando foi driblar a mãe de Sandra, seus olhos encontraram os da menina. Um instante tão pequeno como piscar os olhos. O suficiente para tirar toda a concentração do jogo, e pimba no chão. Rolou três vezes no asfalto, queimou o corpo e esfolou joelhos e cotovelos. Ficou por lá, arrastou-se levemente para uma sombra de árvore ali ao lado e deixou-se sofrer de olhos fechados. Estranhamente guardou a foto da menina na lembrança. Escondido nas dores do corpo, silencioso, o olhos cerrados não tiravam a imagem de sua mente. Ouvia as vozes de socorro ao longe, não pela angústia dos arranhados e o calor do asfalto, mas, pela primeira vez algo o tirou de campo, sua primeira contusão séria, precisava de atendimento.
Levantou-se ainda tonto, atordoado, procurou seu mais severo adversário e não o encontrou, outras pessoas, algumas conhecidas vieram ao seu socorro, mas a menina sumira na pequena multidão e ele tentava esquecer a dor para procura-la. Foi Seu Coutinho que o levou para casa, o carregou por uns metros, mas o garoto pediu para ir andando. Foi, mas demorou uma eternidade, mancando e se arrastando de dor e de raiva por ter perdido a menina de vista.
A bela zagueira, sua mais implacável oponente.

2 comentários:

Fernando Amaral disse...

Já escrevi lá. Escrevo cá, de novo. Belo texto. O Coutinho merecia. Acho que agora é escrever para o Baroninho...

Marcelo disse...

Apesar de preferir algo mais explosivo (dinamite), belo texto, belo texto...