quinta-feira, 5 de julho de 2007

Três Amigos e a Bola

Lico e Raul eram lavradores e cortavam cana nas fazendas ligadas à usina da região. Junior era filho de fazendeiro, estudava na cidade e passava os finais de semana na fazenda, chegava cedo para encontrar os amigos de infância e juntar os peões para montar os times no campo recortado nos fundos do celeiro da sede. O tratorista ainda lembra do dia em que Junior pediu ao pai o campo para as peladas.
Ainda criança, o garoto apaixonou-se pela bola. Tudo em sua vida se resumia aquele objeto. Sua primeira palavra e única por muito tempo. Ele corria atrás dela, chutava, quicava, cansava a família de tanto trocar passes e obrigar primos, tios, pai, mãe, a buscar a sua querida nos lugares mais impróprios, onde ele a enfiava, mas não a alcançava. Seu completo resumo do significado da felicidade. Tudo que era bom era chamado de bola simplesmente. O doce de leite da tia estava à mesa durante o horário do almoço e ele via, apontava com o dedo e, numa ordem, falava, bola, bola! Tiravam ele do poço aonde os patos iam se banhar e ele em prantos protestava, tentando voltar para a água, bola, bola, papai! Na televisão por satélite assistia aos jogos de futebol com o avô e mostrava quantas vezes ela aparecesse na tela que ali havia uma bola, lhe pareciam inúmeras, como um sonho. Enfim, sua vida era a pelota, e ponto.
Já Lico e Raul cresceram no meio dos peões, seus pais trabalhavam como cortadores de cana para o pai de Junior. Gostavam de bola também, mas aprenderam outras palavras enquanto cresciam. Trocavam passes nos fins de tarde, quando seus pais, compadres, chegavam da roça e iam jantar. Esforçavam-se em manter a bola de meias inteira por algum tempo, mas logo tinham que assaltar furtivamente os varais vizinhos, refazer a bola e tentar não levar uma surra de cinto dos pais. Geralmente conseguiam.
Perto dos seis ou sete anos conheceram o filho do senhor das terras. Antes viram seus pais ficarem humildes com a presença daquele homem imenso que aparecera no acampamento e que dava ordens firmes para outros que eles sempre viam ali, mas que não trabalhavam, apenas olhavam os seus pais e mães cortarem a cana. Junto daquele desconhecido vinha um menino agarrado às suas calças, e que era mais ou menos do tamanho deles. Estava claramente assustado, corria os olhos em todas as direções e procurava desesperado não tocar em ninguém. Um único detalhe lhes chamou mais a atenção. No outro braço vinha com uma bola de couro, dessas de televisão, dos jogos do boteco em que seus pais costumavam beber depois do trabalho. Os olhos cresceram para a bola. A deles estava ali no chão esquecida, perdeu a importância. Não para Junior, em sua frenética procura por uma fuga, avistou a pequena bola de meias jogada no chão, soltou a calça do pai e a buscou com a mão livre, acalmou-se, correu para o carro do pai e subiu na cabine feliz, premiado pela saída de casa. Os outros dois garotos tentaram segui-lo, tomar de volta o que era deles por direito e trabalho. Mas os velhos foram mais rápidos e cada um seguro pela sua camisa teve o encontro dos olhos do pai a dizer, aquieta o facho! Sobrou a frustração. Seus pais não puderam explicar os motivos, afinal a bola era deles e o garoto a roubara, mas não tinha conversa.
Passado algum tempo, novo sumiço de meias nos quintais, nova bola, o reencontro. O garoto apareceu no acampamento distribuindo coisas com sua mãe, supervisados por outros peões. Era época de Natal. E a raiva deles pelo menino foi substituída por uma nova amizade, o garoto vendo a nova bola de meias, chegou perto deles sorrindo. Raul agarrado à bola a trouxe para as costas, escondendo, mas sucumbiu à troca. O menino vinha com uma bola de couro em uma sacola, sem pedir para trocar foi surpreendido pelo presente, mais uma bola de meias. Gostou e mostrou para a mãe o novo objeto da coleção.
Junior, com a aprovação da mãe, chamou seus novos amigos para visitá-lo na sede, assim poderia jogar futebol. A amizade cresceu entre os três, apesar de algum protesto do pai de Junior. Com pouco mais de dez anos ganhou o campo de futebol. Campeonatos foram organizados, times ganharam camisas, e os garotos começavam a mostrar que tinham talento para o negócio. Raul, como não era tão bom no drible, preferiu ir para o gol, assim também participava de todas as peladas, todo mundo queria ficar na linha. Lico foi jogar na frente, atacante rápido e de chute preciso. Junior começou como lateral esquerdo, mas jogava com as duas pernas, era inteligente, e na falta de bons laterais direitos, correu para a posição, mas entrava pelo meio quando os companheiros não conseguiam armar as bolas para o Lico. E assim cresceram, jogando bola nos intervalos do trabalho e da escola e, como companheiros de time, nos finais de semana.
Junior passou no vestibular em São Paulo, foi ser Doutor e parece que um time da capital se interessou por ele, alguém o viu jogando com os colegas em um torneio da faculdade. Lico tenta a sorte em peneiras da segunda divisão e joga em times semi-profissionais, rodando pelo interior, não reclama, gosta de mais de bola para parar. Raul virou lavrador, como seu falecido pai, precisou ajudar em casa, sua mãe ficou só e os irmãos são pequenos. Nos fins de semana continua sendo o melhor goleiro da região. Semana passada tomou um belo gol de um cara chamado Reinaldo, novo na área, mas que joga um bolão.

5 comentários:

Fernando Amaral disse...

Melhor do que escrever é ler. Abraço!!!

Lucilio Brito disse...

Belo texto..!

Daniel disse...

Agora o cabra não pára mais de escrever. Que beleza!

Fernando Amaral disse...

Cada vez que leio gosto mais... é vício.

Anônimo disse...

descobi seu texto.descobri você. simples, direto, delicado, politizado. creio que não perderei mais de vista, do coração e da emoção este espaço. vai firme e fundo....